Advogada de Jairinho pediu ajuda aos chefes do tráfico Marcinho VP e FB em campanha à Câmara, aponta PF

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Flávia Froes na filiação do União Brasil no Rio de Janeiro, ao lado do presidente da sigla, Waguinho. Foto: Reprodução Instagram

A advogada Flávia Fróes, que defende o ex-vereador Jairo Souza Santos Junior, o Jairinho, além de traficantes da maior facção criminosa do Rio, esteve na penitenciária federal de Catanduvas (PR) para pedir apoio de chefes do tráfico para sua campanha eleitoral. Flávia concorreu a uma vaga de deputada federal em 2022 pelo União Brasil, teve 1.361 votos e não foi eleita. As solicitações da então candidata, feitas no parlatório da unidade prisional — onde os presos são atendidos pelos advogados — foram gravadas em áudio e vídeo e constam em inquérito da Polícia Federal, ao qual O GLOBO teve acesso, que apurou a interferência do tráfico e milícia nas eleições do ano passado.

De acordo com os relatórios de transcrição das conversas, Flávia pediu apoio a Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, chefe do tráfico no Complexo do Alemão, e Fabiano Atanasio da Silva, FB, que comanda a venda de drogas no Complexo da Penha, em 2 de maio do ano passado. Os dois concordaram em apoiá-la. Nos diálogos, Flávia explica que, apesar de ser de esquerda, estava concorrendo por um partido de direita, em razão do “tempo de televisão” dado a ela.

O União é o mesmo partido da ministra do Turismo Daniela Carneiro, a Daniela do Waguinho, cuja campanha tem suspeita de participação de integrantes da milícia.

 

Em conversa com VP, Flávia afirma que lutará pelos direitos dos presos. “Eu tô fazendo campanha para ser federal para que a gente efetivamente tenha chance de ter oportunidade de brigar lá em cima, como a gente sempre vem brigando, mas antes com o pires na mão, né”, explicou.

 

“Daqui a pouco eu vou perder um advogado e o povo vai ganhar uma parlamentar para defender os direitos do preso”, respondeu Marcinho.

Durante a conversa, Flávia relata a Marcinho que a esposa dele estava apoiando outra candidata, mas pede que seja feita campanha para ela também. “Ah, mas dá pra dividir voto, a família é grande pra caramba. Pelo menos 100 votos, só na minha família 100 votinhos sai pelo menos”, retruca o traficante. Para a Polícia Federal, o termo “família” refere-se a traficantes integrantes da quadrilha de VP.

O traficante questiona a advogada sobre quantos votos precisaria para se eleger. Flávia exalta o apoio que o partido vinha lhe dando. “Eles me deram chances reais de ganhar, me deram TV todos os dias, sou a deputada federal que vai ter TV todos os dias, duas vezes por dia, então eu tenho chance com isso”, diz.

 

No fim da conversa, a advogada questiona se poderia falar para a família de Marcinho que ele a apoiaria e encontra resistência do traficante: “O voto é uma coisa espontânea, cada um vota em quem quer, a minha família tem mais de 100 pessoas, só na Baixada deve ter umas 100”.

“Mas posso dizer que tenho seu apoio? Você votaria em mim?”, insiste Flávia. “Pode. Eu votaria, claro que votaria.”

 

No mesmo dia, após o diálogo com Marcinho VP, Flávia conversou com Fabiano Atanásio. Com o criminoso, não encontrou qualquer resistência: “Quero seu apoio, da sua família também. Posso dizer que você me apoia? Você vai querer votar em mim?”, pergunta Flávia Fróes. Aos risos, o traficante responde: “Lógico que eu voto pra você (sic)”.

‘Direito dos presos’

 

Nos presídios federais, todas as conversas entre advogados e clientes são gravadas. Além de Marcinho e FB, Flávia também pediu apoio, no parlatório, a Carlos Eduardo Rocha Freire Barboza, conhecido como Cadu Playboy. No diálogo, a advogada diz ao traficante para pedir à sua família votar nela. Ela acrescenta que faz esse mesmo pedido para todo mundo que “tira” ali. A expressão é usada por advogados para os presos que eles solicitam que sejam retirados de suas celas para atendimento no parlatório.

Em uma das conversas, Flávia chega a pedir dinheiro para Marcinho VP, a título de honorários advocatícios, pois afirma que durante a campanha não estava conseguindo trabalhar. Ela afirma que o valor poderia ser descontado de trabalhos posteriores e solicita “o valor de um júri”. Segundo a investigação, em entrevista concedida por Flávia, ela afirmou que não faz um júri popular por menos de R$ 300 mil. Em outra conversa, ela tem a confirmação de Fabiano Atanásio de que o dinheiro seria repassado a ela, mas o criminoso diz que não é necessário ressarcir nada.

 

Ao GLOBO, Flávia afirma que pediu apoio não apenas aos três traficantes citados no inquérito, como a outros, em razão de sua plataforma:

— Minha principal plataforma de campanha era defender os direitos dos familiares das pessoas privadas de liberdade. Nada mais natural do que pedir voto aos familiares, como fiz. Sou, com orgulho, deputada de porta de cadeia, como me intitularam.

Flávia alega ainda que não recebeu dinheiro do tráfico de drogas para sua campanha e afirma que o dinheiro solicitado a Marcinho era para pagar serviços de advocacia:

— Não recebi dinheiro nenhum. Se tivesse recebido, não estaria com dívida de campanha. Na semana passada fui executada em R$ 100 mil por uma gráfica. O partido me deu apenas R$ 150 mil.

De acordo com Flávia, o inquérito da PF gerou um processo, na Justiça eleitoral, de inelegibilidade por abuso de poder econômico, que ainda está em andamento.

Fonte: O Globo

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