O Tribunal de Contas do Estado de Rondônia (TCE-RO) expediu documentação ao Instituto de Previdência do Estado (Iperon), para explicar qual análise que embasou o credenciamento da REAG Gestora de Recursos Ltda. e a decisão inicial de investimento no fundo.
O órgão, que cuida da aposentadoria dos servidores públicos do Estado, investiu R$ 4,4 milhões em fundos geridos pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A., posteriormente rebatizada como CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários S.A. O grupo financeiro foi alvo de investigações da Polícia Federal, por meio da Operação Carbono Oculto.
Em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF (antiga Reag Trust). “A decretação da liquidação extrajudicial foi motivada por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional (SFN)”, informou o documento oficial do Banco Central.
O TCE-RO solicitou, ainda, atas do Comitê de Investimentos ou pareceres técnicos que fundamentaram a estratégia de resgates mensais parciais adotadas em 2025.

O valor aplicado no grupo financeiro representa cerca de 0,06% da carteira total do Iperon, que fechou 2025 com aproximadamente R$ 7,05 bilhões em recursos sob gestão. A informação consta em documentos públicos do instituto, aos quais o site teve acesso, incluindo relatórios e pareceres de gestão da política de investimentos.

A Reag Trust foi uma das principais empresas atingidas pela Operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025 pela Receita Federal, Ministério Público Federal e Polícia Federal. A operação investiga esquema de lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e suposta infiltração do crime organizado no setor de combustíveis e no mercado financeiro, conforme reportagens publicadas pela revista Veja.

Em 15 de janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF (antiga Reag Trust). “A decretação da liquidação extrajudicial foi motivada por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do Sistema Financeiro Nacional (SFN)”, informou o documento oficial do Banco Central.
Análise no Tribunal de Contas
O caso está sob análise no Tribunal de Contas do Estado de Rondônia (TCE-RO), por meio de um grupo de auditores e técnicos. O órgão tem autonomia para avaliar as aplicações e deve expedir, nos próximos dias, recomendações ao Iperon sobre as providências a serem adotadas.
Ainda não há informação se o Governo do Estado pretende revisar o valor aplicado. O Iperon não se manifestou sobre eventuais exposições remanescentes ou medidas já tomadas após a liquidação da distribuidora.
Resolução do Banco Central orienta gestões de previdência
A aplicação de recursos públicos exige cautela e atenção redobrada dos gestores. É o que estabelece a Resolução CMN nº 4.963/2021 do Conselho Monetário Nacional, que determina aos responsáveis pela gestão dos regimes próprios de previdência social (RPPS):
I – observar os princípios de segurança, rentabilidade, solvência, liquidez, motivação, adequação à natureza de suas obrigações e transparência;
II – exercer suas atividades com boa-fé, lealdade e diligência;
III – zelar por elevados padrões éticos.
Legenda: Parecer de Gestão da Política de Investimentos do Iperon – 2025
A reportagem entrou em contato com o grupo investigado, mas até o fechamento desta matéria não houve manifestação.
Segundo a Transparência Internacional e reportagens sobre a Operação Carbono Oculto, as investigações revelaram indícios de infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no mercado financeiro e no setor de combustíveis.
Fundo de investimentos com patrimônio de R$ 30 bilhões
A Receita Federal já identificou ao menos 40 fundos de investimentos (multimercado e imobiliários), com patrimônio de R$ 30 bilhões, controlados pela organização criminosa. Em sua maioria, são fundos fechados com um único cotista, geralmente outro fundo de investimento, criando camadas de ocultação. Entre os bens adquiridos por esses fundos estão um terminal portuário, quatro usinas produtoras de álcool (mais duas usinas em parceria ou em processo de aquisição), 1.600 caminhões para transporte de combustíveis e mais de 100 imóveis, dentre os quais seis fazendas no interior do estado de São Paulo, avaliadas em R$ 31 milhões, e uma residência em Trancoso/BA, adquirida por R$ 13 milhões.
Os indícios apontam que esses fundos são utilizados como um mercado de ocultação e blindagem patrimonial e sugerem que as administradoras dos fundos estavam cientes e contribuíram para o esquema, inclusive não cumprindo obrigações com a Receita Federal, de forma que sua movimentação e a de seus cotistas fossem ocultadas da fiscalização.
Nome da operação
O nome “Carbono Oculto” foi escolhido para traduzir de maneira metafórica a ideia de dinheiro escondido dentro da cadeia do combustível, em alusão tanto ao elemento químico presente na gasolina/diesel quanto ao ato de esconder recursos ilícitos nas instituições de pagamento e nos fundos de investimentos.
Veja a íntegra das reportagens: Operação Carbono Oculto: revelações e desdobramentos | Transparência Internacional – Brasil
Fonte: Valor&MercadoRO
Texto: Marcelo Freire
Processo: 0319/2026








