
Em 2018, o Instituto Real Time Big Data protagonizou um dos maiores equívocos das pesquisas eleitorais em Rondônia. Poucos dias antes do primeiro turno, o levantamento registrado no TRE sob o número 07888/2018 apontava um segundo turno técnico entre Expedito Júnior (PSDB), com 38%, e Maurão de Carvalho (MDB), com 35%. O então pouco conhecido coronel Marcos Rocha (PSL) aparecia em quarto lugar, com apenas 5% das intenções de voto na amostra estimulada.

A realidade das urnas foi outra. Impulsionado pela forte onda Bolsonaro, Marcos Rocha saiu do anonimato relativo e foi eleito governador, contrariando frontalmente as projeções do instituto. O episódio ficou marcado como um dos principais “vexames” das pesquisas naquele pleito estadual.
Oito anos depois, o instituto retorna ao debate eleitoral rondoniense com nova pesquisa para o governo e presidente da República (registro BR-05580/2026), gerando novamente questionamentos.
Uma sondagem recente do Real Time Big Data para o governo de Rondônia incluiu nomes de políticos que estão legalmente impedidos de disputar a eleição, como o atual governador Coronel Marcos Rocha (impedido pela regra da reeleição consecutiva) e o ex-governador Ivo Cassol (inelegível). A presença desses nomes na lista estimulada ou espontânea merece uma atenção do eleitor rondoniense e, da Justiça Eleitoral também.

Além dos problemas de inclusão de candidatos inelegíveis, a Justiça Eleitoral em Rondônia tem demonstrado rigor e atenção redobrada quanto à qualidade e transparência das pesquisas. Magistrados têm suspendido divulgações ao identificar “divergências relevantes”, como inconsistências entre o plano amostral registrado, a área geográfica efetivamente pesquisada e os documentos fiscais de contratação. Em um caso recente, um desembargador destacou que imprecisões na abrangência municipal comprometem a fiabilidade estatística dos resultados, justificando a suspensão imediata da publicação.
Partidos políticos e a própria Justiça Eleitoral do estado acompanham com lupa os levantamentos eleitorais de 2026. Representações têm sido frequentes, e a cobrança por cumprimento rigoroso da Resolução TSE nº 23.600/2019 (e suas atualizações) – que exige clareza no plano amostral, amostragem representativa, identificação do estatístico responsável e fidelidade entre o que é registrado e o que é aplicado – tem sido intensa.
Especialistas lembram que, embora as pesquisas sejam ferramentas importantes para mapear tendências, erros metodológicos ou de interpretação podem gerar ruído, influenciar precocemente o debate público e até prejudicar a lisura do processo eleitoral. Em Rondônia, o histórico de 2018 serve como lembrete: projeções que não captam o sentimento real do eleitorado, especialmente em momentos de forte polarização ou “ondas” nacionais, merecem ser recebidas com cautela.
Em 2022, o Tribunal Regional Eleitoral, por unanimidade, julgou procedente representação eleitoral movida pelo PL contra o Instituto de Pesquisa Real Time (Rádio e Televisão Record), aplicando multa a empresa por divulgação de pesquisa irregular. A Real Time foi multada na época, juntamente com a empresa contratante, segundo relatório do juiz Edenir Albuquerque, por divulgação de pesquisa sem preenchimento dos requisitos.
Com as eleições de 2026 se aproximando, a expectativa é que institutos, partidos e a Justiça mantenham o nível de exigência elevado. Transparência total nos registros, amostragens fiéis e inclusão apenas de nomes viáveis são essenciais para que as pesquisas cumpram seu papel informativo, sem distorcer a realidade que as urnas, em última instância, irão definir.
Marcelo Freire
*O autor é jornalista , editor de política e pós-graduado em direito eleitoral
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