Elefante branco de R$ 8 milhões: inaugurado em Guajará-Mirim, porto só serve para visitação pública

156
A IP4 de Guajará-Mirim (HN-125) faz parte do corpo hídrico do Rio Mamoré e está situada na margem direita. Foto: DNIT

Guajará-Mirim – Inaugurado em agosto de 2023, com direito a ministros, autoridades estaduais, municipais e representantes da Bolívia, o Porto Oficial IP4 de Guajará-Mirim permanece um monumento à inoperância. Custou mais de R$ 8 milhões, foi erguido em 2022 e, um ano depois, vendido como promessa de desenvolvimento e integração fronteiriça. Dois anos se passaram: não funciona.

Ato de inauguração da Instalação Portuária de Guajará-Mirim contou com a presença do Ministro Renan Filho. Foto: DNIT

Enquanto o porto de concreto dorme em silêncio, barqueiros e comerciantes seguem na mesma rotina de sempre — carregando e descarregando mercadorias em barrancos enlameados durante o inverno e poeirentos no verão. A cena lembra mais o improviso colonial do que uma fronteira em pleno século XXI.

Leia também:

Dnit firma contrato de R$ 615 milhões com empresa onde empresário e engenheiros viraram réus por desvio de recursos

Inaugurado em agosto de 2024, Instalação Portuária de Guajará-Mirim segue fechada

O prédio, tecnicamente em Rondônia, não responde a Rondônia. O comando é do DNIT do Amazonas. Ninguém explica direito por quê. A confusão administrativa soma-se ao paradoxo: temos um porto, mas não temos porto. Um arremedo de infraestrutura que, em essência, não passa de uma concretagem de barranca.

A IP4 de Guajará-Mirim (HN-125) faz parte do corpo hídrico do Rio Mamoré e está situada na margem direita. Foto: DNIT

A comparação é inevitável: se o governo não consegue entregar o básico — um porto ribeirinho —, o que esperar da tão sonhada ponte binacional estaiada de mais de um quilômetro, anunciada desde o século passado? O fantasma da obra paira, enquanto a população ribeirinha continua entre a lama e a poeira.

Para piorar o surrealismo, em setembro de 2025 o porto finalmente abriu. Mas não para operações. Para visitação pública. Segundo a chefe administrativa, Raissa Zaramella, moradores e turistas podem entrar das 8h às 18h. Só que há regras: estudantes de farda, depois da aula, não entram; bebidas alcoólicas e objetos ilícitos, idem; fotografar, só no estacionamento; crianças desacompanhadas, proibidas.

O porto conta, no momento, com um único agente de portaria. É o primeiro porto-museu do Brasil — e, ironicamente, sem acervo.

A classe empresarial não esconde a frustração. “O porto nasceu de uma necessidade real”, diz Cícero Noronha, da Federação das Associações Comerciais. Ele lembra que, historicamente, Guajará-Mirim carecia de uma estrutura minimamente adequada para movimentação comercial, como tantas cidades da Amazônia que vivem de barrancos improvisados. A promessa era atender a comunidade ribeirinha, mas também abrir espaço para transações internacionais com a Bolívia. O discurso oficial seguiu esse caminho. A prática, não.

Assim, o Porto IP4 segue como está: um símbolo caro da incapacidade estatal. Entre solenidades, discursos e fitas cortadas, sobrou a poeira para quem depende dele.

Sobre a possível abertura do porto para as atividades a que se propõe, nossa reportagem enviou e-mail para o Dnit, em Manaus (AM).

Veja a seguir, na íntegra, o curto comunicado que o Dnit amazonas enviou nesta segunda-feira em resposta as perguntas formuladas pela reportagem deste www.expressaorondonia.com.br na sexta-feira.

Dnit Responde

“A IP4 encontra-se em operação desde a emissão da ordem de início de serviços, em novembro de 2022. Contudo, o processo de alfandegamento ainda está em fase de implementação, o que impede, por ora, o recebimento de embarcações estrangeiras. O DNIT permanece atuando para viabilizar essa etapa, que permitirá ampliar a capacidade operacional do porto.

Enquanto isso, a população do município continua utilizando o porto municipal, situado na mesma orla, que segue atendendo às demandas locais de transporte e navegação”.

Fonte: Expressão Rondônia

Deixe seu comentário